Escolha o seu Final Feliz



Desde que participara da celebração das bodas de ouro dos pais, ela se emocionava com quase tudo. Qualquer gesto de gentileza, como um homem abrir a porta do carro para a esposa grávida, ou a mais corriqueira expressão de afeto, como um bilhete tão simples quanto o de “bom trabalho” que a chefe lhe deixara, era motivo para seus olhos lacrimejarem e sua voz ficar embargada. Tentava, sempre, controlar-se.

Ele sabia que havia sido negligente com a ex-esposa, é incrível que as pessoas possam parecer tão comuns quando estão por perto. Oito anos se passaram e agora, bem agora, ela escrevera um livro. Não era sobre eles, não podia ser, mas ele se sentia como se fosse. Apaixonou-se de novo, dessa vez pelas letras. Quando a gente é jovem, acha que vai encontrar um número infinito de pessoas especiais. À medida que envelhecemos, descobrimos que elas existem em quantidade limitada.

Sentada no canto direito do Lumio, seu café preferido em Buenos Aires, ela se perguntava se aceitar esse convite para mais um encontro às escuras — na verdade, já tinha visto fotos dele no celular — fora uma boa ideia. Depois de anos mantendo-se aberta, conforme lhe dizia sua mãe, só conhecera pelos aplicativos três tipos: impertinentes, cafajestes e casados. Dessa vez, insistira para que ele viesse até seu território. Se tudo corresse muito mal, ela se levantaria em vinte minutos e voltaria para sua maratona de séries de TV.

O chá dele estava bem quente, era bom colocar a mão em volta da xícara. Nos últimos tempos, começara a fazer coisas que nunca havia feito, até a tomar chá. Aos trinta e até mesmo aos quarenta, fugira de tudo o que podia ser permanente. Aos cinquenta, tudo o que queria era algo a que se agarrar. Comunicara-se com a ex uma vez, elogiando-a. Recebera uma resposta educada. Esperava mais e decepcionou-se. Era grande e forte, sempre forte. Agora sentia-se pequeno.

Talvez o efeito das bodas de ouro dos pais sobre ela residisse no fato de que sempre buscara finais felizes mirabolantes, épicos, cinematográficos. Na verdade, o desfecho perfeito sempre estivera ali, bem na sua frente. Sentia-se cega por não vê-lo antes, mas amparada porque entendia ser capaz de construí-lo.

Impaciente, sem tempo a perder, ele manda uma mensagem para o celular dela — e ouve o barulho do aparelho recebendo-a, a poucos metros de distância, ali naquele café. Os dois se olham, por dois ou três segundos. Sorriem. Ele é o mesmo homem da foto. Um pouco mais velho, ainda grande e resistente, porém um tanto cansado. Ela, estranhamente, não acha isso ruim.

Ele se levanta. Ela observa a xícara de chá pequenina naquelas mãos gigantes e as pulseiras de couro que parecem ter estado sempre ali. Ele repara no suéter escuro dela, com bolinhas claras, no cachecol leve e azulado ao redor do pescoço e gosta do seu sorriso tímido. De repente, forma uma memória boa de alguma coisa que nunca viu. Ela sente algo, e é bom. Ele sente algo, e é bom — e inexplicável — também.


Fonte: https://elprofejose.files.wordpress.com/2013/05/bs_as_visa_mayodscn2758_134.jpg
http://www.intrinseca.com.br/blog/2016/05/escolha-seu-final-feliz/

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